Marcelo Brum Lemos: ELetrODomÉSTiCoS

Sheynna Hyurya Domingues

Foto: Sheynna Hyurya Domingues

ninguém está sozinho, você está sozinho, eu estou também. eu comecei falando com os eletrodomésticos. o aparato de som, por exemplo. ele recusava tocar um ou outro cd, tinha um paladar musical próprio, cuspia grateful dead sem constrangimento. então eu dizia pra ele, tá bom, você que sabe…


quando me ocorreu em público pela primeira vez, houve entre os que perceberam um suspiro apreensivo, mas preferiram pensar que se tratava de mais uma de minhas atuações, minhas costumeiras pequenas performances pessoais. eu era assim, representava todo o tempo, e eles também, e você.
depois o sofá. eu queria que ele soubesse, o sofá, parabéns sofá, você está bastante confortável hoje!:

S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0-0-0-0L-L

, cantei para ele.
adolescente, eu tinha a idéia fixa de uns desenhos que eu achava “A” idéia para desenhos: frutas devoravam as pessoas. laranja, maçã, melancia, uva, abacaxi, banana, com mãozinhas e bracinhos punham nas bocas uns pequenos humanos. lembro a capa de disco em que os robôs gigantes pegavam nas mãos as pessoinhas que somos e estraçalhavam. Queen – quem também meu aparato de som lançou fora. bravejei, se você recusar este mais uma vez, eu…

o quê?, ele disse. quase dei-lhe um tapa e ele calou.
a inteligência das coisas varia como as inteligências dos animais – os gatos são espertos, os cães são amigos, formigas são unidas. liquidificadores são tontos, computadores são e-motivos: dante, o 486 que vive aqui conosco, me deixa às vezes sem as iniciais do meu nome, e hoje roubou as maiúsculas.


a geladeira é uma porta: bati nela, perguntei, tudo bem? posso abrir? mas quando puxei o trinco a luzinha não acendeu e eu achei que fora indiscreto – devia ter esperado a resposta. pedi desculpas – a intimidade da geladeira… subordinei-me, mas sem perceber no primeiro momento. depois pensei na petulância da parte dela. ora! não acender a luzinha pra mim! voltei lá e abri a porta de golpe. a luz acendeu, convidativa. a geladeira me sorria de novo. a geladeira? de manhã passei um pano nas laterais da lataria, limpei as prateleiras dela.


não, eles não abrem a boca para falar como nos desenhos animados, eu não tenho alucinações. a dificuldade que as pessoas têm para entender as coisas é que elas – coisas – obviamente não usam bocas; há sim um outro sistema. a televisão, amiga íntima e babá, parlante, misto de mãe e ministro. já o fogão me queimava sempre, era ciúmes, eu sabia. da geladeira. coloquei um banquinho a seu lado e conversamos toda a tarde.


então aconteceu: fazia pouco sol e saí para colher laranjas no quintal. não ventava mas as árvores moviam os dedos. colhi as quatro maiores e maduras que pude e trouxe para a cozinha. quando lancei a faca à primeira, um som estranho senti. foi aí que pensei, há quanto tempo eu não espremia uma laranja?


(mARceLo BrUm leMoS)

~ por Barbara Kirchner em 06/05/2014.

Uma resposta to “Marcelo Brum Lemos: ELetrODomÉSTiCoS”

  1. ‘malandro que é de fato bom malandro…’
    é provocador do estranho naquilo que bem conhece
    e insulta a hipocrisia e a solidão.
    há solidão só se for com os eletrodomésticos.

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