João Gilberto Tatára

“Eu não sou capaz de te acompanhar em ‘Atirei o Pau no Gato’. Mas, se você me chamar para compor alguma coisa, eu consigo criar uma ópera para 150 instrumentos.” João Gilberto Tatára, cantor e compositor

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O padrinho de todos os autores

Aos 65 anos, com mais de 500 músicas compostas, João Gilberto Tatára ganha a vida oferecendo palco, público e parceiros aos compositores da cidade

Publicado na Gazeta do Povo em 17/10/2011 | Luigi Poniwass

Toda segunda-feira, por volta das 21 horas, um fenômeno mágico acontece numa casa transformada em boteco no Água Verde, mais precisamente no número 810 da Avenida dos Estados: do pequeno palco brotam performances incríveis, jam sessions memoráveis, parcerias arrebatadoras – de tal modo que, quando você se dá conta, está tão envolvido quanto o público do espaço, cantarolando músicas desconhecidas. É a Segunda Autoral do Bardo Tatára, que a cada semana recebe hordas de cantores, compositores, instrumentistas e poetas de todas as idades e estilos (Veja o serviço completo do bar no Guia Gazeta do Povo).

O bruxo responsável por tão poderosa alquimia tem nome de gênio e cara de guru hippie: João Gilberto Tatára. Cantor, compositor e poeta autodidata, ele completou 65 anos no último dia 15 de setembro, e há dois anos e meio deu a partida no projeto que oferece palco, plateia e parceiros a todos os compositores da cidade – sejam nativos ou forasteiros, de qualquer vertente musical.

Serviço

Veja as informações do Bardo Tatára no Guia Gazeta do Povo

Filho de um ferreiro que tocava bandolim com uma costureira que cantava, Tatára foi arrebatado pela música aos 15 anos, na Praia Central de Guaratuba: “Eu vi um amigo tocando violão na praia e fiquei impressionado!”, conta. “Pedi o violão emprestado para ele e comecei a tocar na mesma hora…”

Logo o garoto começou a sair de casa, e os amigos o levaram para fazer serenatas. “Um dia me arrisquei a cantar, os seresteiros disseram que eu cantava legal e me convidaram para participar”, revela. Na mesma época, por volta dos 16 anos, passou a frequentar os poucos bares da cidade, onde conheceu outros músicos e começou a tocar na noite.

A essa altura Tatára já compunha compulsivamente, enquanto vivia de bicos ou às custas do pai, que havia ficado rico comprando e vendendo imóveis. “Cada vez que eu arrumava um emprego, dava um jeito de sair, pegava o dinheirinho da indenização e me mandava para o Rio de Janeiro ou São Paulo, tentar mostrar minhas músicas”, relata.

Nessas peregrinações ao eixo Rio-São Paulo, Tatára acabou conhecendo muita gente boa, como Vinicius de Moraes, Toquinho, João Bosco, Simone, Belchior, Silvio Brito, Joyce, Elis Regina e César Camargo Mariano, entre outros. Mas, embora tenha tido contato – e recebido elogios – de praticamente todos eles, ninguém o ajudou. “Uma vez a Simone me xingou, pediu que eu desse umas fitas com as minhas músicas para ela”, recorda. “Eu queria mostrar ao vivo, no meu violão, mas ela viajava muito e nunca deu certo.”

Cansado de insistir, decidiu viver da música em Curitiba mesmo. “Mas eu nunca consegui, porque nos bares onde eu tocava eu não recebia cachê, só tocava as minhas músicas”, explica. “Na verdade eu nunca gostei muito de ouvir música, sempre preferi tocar. Eu não sou capaz de te acompanhar em ‘Atirei o Pau no Gato’, mas se você me chamar para compor alguma coisa eu consigo fazer uma ópera para 150 instrumentos, incluindo os arranjos.”

O mais próximo que Tatára chegou de ser reconhecido foi quando lotou sete noites no Teatro Paiol, com o show Jogo de Espelhos, em 1979 – que deu origem a um dos seus dois únicos discos “oficiais” (o outro chama-se Águas do Futuro). Graças a esse projeto, Tatára conheceu o seu grande parceiro, Cabelo, e terminou de enterrar a herança que recebeu dos pais, ao financiar o espetáculo e uma turnê que passou ainda por Londrina e Cornélio Procópio.

“Chegou um ponto em que eu desisti de ser sucesso”, confessa. “Mesmo porque o sucesso é uma coisa relativa: na minha rua eu sou sucesso, aqui no meu bar eu sou sucesso. Eu tenho um palco onde eu me apresento toda noite, ao lado de excelentes músicos, e muita gente gosta.”

Não é essa a definição de sucesso?

Serviço:

Segunda Autoral do Bardo Tatára. Avenida dos Estados, 810 – Água Verde. Toda segunda, às 21 horas. Entrada franca

~ por Barbara Kirchner em 21/10/2011.

3 Respostas to “João Gilberto Tatára”

  1. Pois, Barbarosa!!! Tempos atrás achei o “Águas do Futuro” num sebo aí e, puxa, legal mesmo!!! Não conhecia! Agora não paro de escutar! Vamos numa segunda no “Bardo”??? Vamos? Abraço!

  2. Tive o prazer de tocar com muita gente boa, de tão boas quer eram parecidas demais. Tatara é singular, nem melhor e nem pior que ninguém, é diferente, de tão diferente que é único, é singular.
    Um verdadeiro Artista, é pena que a vida não lhe deu a sorte e as oportunidades certas nas horas exatas, isso acontece com muita gente boa também. O importante é reconhecer-mos nele um Homem genial uma alma bondosa com talento tão grandioso que ele até mesmo desconhece.
    Parabéns pela matéria.

    Chris Pessoa
    Timbatera

  3. vi um som do tatara na cultura, moro em marília-sp e fiquei apaixonada pelo som…parabens

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