Centenário do Príncipe dos Poetas Paranaenses

Crédito: Acervo Júlia Wanderley/IHGEPr

Cem anos de coroação do Príncipe dos Poetas Paranaenses, Emiliano Perneta. Foi em 20 de agosto de 1911, na Ilha da Ilusão do Passeio Público. Um momento marcante, pela grande presença do público, intelectuais e artistas da capital, na época ainda província. A coroação também marcou o lançamento de uma das mais importantes obras do simbolismo brasileiro, o livro Ilusão. Na foto acima dá para ter uma ideia da dimensão do acontecimento. Hoje acontecerá uma homenagem ao centenário no mesmo local, a partir das 10:00.

Fiz uma entrevista com o poeta e tradutor curitibano Ivan Justen Santana* sobre a obra de Emiliano Perneta e sua importância para a poesia paranaense e brasileira. Não pude deixar de questionar sobre a formação histórica da literatura no Estado, já que “Emiliano Perneta simboliza o primeiro momento de auge e sucesso da poesia paranaense”. Para desmistificar o mito, após ler a entrevista sugiro procurar o livro no sebo mais próximo. Provavelmente encontrará (com preço convidativo) a edição de 1996, “Ilusão & Outros poemas” (Edição Farol do Saber), com introdução crítica de Cassiana Lacerda Carollo.

CuritibaCultura: Qual a importância de Emiliano Perneta para a poesia paranaense?

Ivan Justen Santana: Emiliano Perneta simboliza o primeiro momento de auge e sucesso da poesia paranaense. Antes dele, havia manifestações isoladas, como as da romântica Júlia da Costa. O período em que Emiliano se projetou coincide com o ciclo econômico do mate, a consolidação econômica e política da província do Paraná, um grande desenvolvimento — e uma geração de artistas e intelectuais acompanhou isso: entre as maiores expressões artísticas (uma das quais, a arquitetura de estilo eclético), possivelmente a maior, mais significativa e original, é o livro Ilusão, de Emiliano Perneta. Foi lançado em 1911, e sua tiragem de 400 exemplares se esgotou aqui em dois dias. Com isso, mostrou-se que havia obras, autores e público leitor: um modelo de literatura paranaense evidenciou-se ali.

CuritibaCultura: Na última terça-feira (16/08) o Wonkademia prestou homenagem aos poetas Emiliano Perneta, Paulo Leminski e Marcos Prado. É possível considerar estes autores como o centro da tradição e desenvolvimento da poesia paranaense?

Ivan Justen Santana: Na verdade, é possível considerar esses como três “pontos” de uma “linha evolutiva”, não no sentido de grandeza ou importância maior (ou menor, ou crescente), mas simplesmente num alinhamento cronológico. Em vez de estar em algum centro (a literatura do e no Paraná é periferia da Literatura Brasileira, que é periferia da Literatura Universal), esses autores podem ser vistos como demonstração de que aqui se faz algo que poderia estar nalgum centro. Essa discussão é interessante, mais como polêmica do que como algo afirmativo. Mas se houver alguma tradição (eu penso que há) e se há desenvolvimento histórico (no que também concordo), além de Perneta, Leminski e Prado, estão envolvidos também Bento Cego, Júlia da Costa, Dario Vellozo, Silveira Neto, Adolpho Werneck, Emílio de Meneses, Leôncio Correia, Euclides Bandeira, Georgina Mongruel, Ada Maccagi, Tasso da Silveira, Helena Kolody, Alice Ruiz, Jaques Brand, e uma série de outros nomes, tanto os que surgiram mais contemporaneamente ao Marcos Prado quanto os que compõe o cenário atual. Isso em termos de tradição e desenvolvimento. Quanto ao centro da tradição, o único nome decisivo é o do Paulo Leminski, que conseguiu a projeção nos centros da grande periferia que é o Brasil.

CuritibaCultura: Como um poeta que lê um conterrâneo, o que te desperta de singular na poesia de Emiliano Perneta?

Ivan Justen Santana: Uma característica que mais me impressiona no Emiliano é sua combinação de conteúdo erótico, musicalidade e precisão formal. Além do erotismo elegante (não apelativo nem tangendo o pornográfico), também há uma exploração de vários temas (lugares comuns, sim, mas praticamente todos os temas da arte são lugares comuns). O que costuma chamar mais a atenção, numa leitura de poeta por poeta, é o domínio e o controle da linguagem. As variações de ritmo, a musicalidade e o domínio técnico do verso singularizam o Emiliano.

CuritibaCultura: No que a poesia de Emiliano pode chamar a atenção do leitor contemporâneo?

Ivan Justen Santana: Acho que já tangenciei isso na resposta anterior. Resumindo: na qualidade técnica, nos temas eróticos, e também nas sua expressões simbólicas da natureza e da vida humana.

CuritibaCultura: O Simbolismo paranaense foi destaque nacional na época. Perdemos esse destaque ao longo do século passado? Por qual razão? Hoje, como podemos considerar nossa posição em relação à produção nacional?

Ivan Justen Santana: Penso que não perdemos muito destaque, porque considero que não foi realmente um destaque nacional, naquela época: foi algo que se descobriu, e tem se observado depois, até hoje. O “nosso modernismo tardio”, que foi a agitação feita pela revista Joaquim, talvez tenha tido mais “destaque nacional” no momento de sua eclosão, do que o simbolismo. Num balanço, não perdemos nem ganhamos: continuamos à margem, como seguimos hoje, mas considero que sempre houve acompanhamento, e sempre (desde o romantismo de Júlia da Costa, contemporâneo ao surgimento da província do Paraná), houve uma produção digna de menção e observação.

CuritibaCultura: No texto de introdução ao livro “Ilusão & outros poemas”, Cassiana Lacerda Carollo observa que “Se o simbolismo é uma crise, esta última resulta dessa abertura de horizontes e da descoberta da poética do inconsciente. Mesmo que essa apareça sob a forma de sintoma, é uma crise definitiva da qual ainda não saímos, e da qual podemos tirar lições.” Pode comentar esta afirmação no que tange à poesia paranaense?

Ivan Justen Santana: Penso que se pode transferir essa citação a todas as artes e escolas artísticas, pois o simbolismo se relaciona diretamente à compreensão do que é arte: é crise em relação ao que é normal, revela o inconsciente a quem se arrisca a compreender e interpretar, e abre os horizontes. Há mesmo muitas lições a tirar (e a atirar, talvez…). No que tange à poesia paranaense, deixo as conclusões ao público leitor: a quem se interessar e procurá-la (ou, como se diz hoje normalmente: a procurar ela). Espero que no mínimo tenham a grata surpresa de que a poesia paranaense existe.

CuritibaCultura: Sábado será o centenário da coroação de Emiliano Perneta como “Príncipe dos Poetas Paranaenses”. Qual a programação para comemorar a data?

Ivan Justen Santana: Haverá um recital de celebração, na Ilha da Ilusão, local em que ocorreu a coroação. Na verdade, o que se coroou na época foi o livro Ilusão, pois foi preparado um exemplar luxuoso, numa caixa feita com madeiras do Paraná, dentro da qual também estava uma coroa de folhas de louro. Mas não há registro de que alguém tenha colocado a coroa em Emiliano: foi mais algo simbólico do que uma cerimônia “cerimoniosa”. Na programação, teremos poemas de Emiliano sendo recitados por representantes de sete instituições culturais do Paraná, apresentações de números musicais vocais, e o descerramento de uma placa comemorativa.

CuritibaCultura: Qual a importância do livro Ilusão, lançado também na ocasião da coroação do poeta, dentro da bibliografia da poesia simbolista brasileira?

Ivan Justen Santana: O Ilusão é um livro relegado a um segundo plano, pois há somente dois poetas simbolistas normalmente mencionados, lidos e estudados: Cruz e Sousa, e Alphonsus de Guimaraens (e diga-se: muito pouco lidos, e estudados menos ainda). Espero que o Ilusão ganhe agora alguma evidência, pois vou disponibilizar, pelo site da Academia Paranaense de Letras, uma re-edição virtual do livro. Por enquanto, a importância do livro é que ele existe, é possível encontrá-lo em bibliotecas, e será possível lê-lo (“ler ele”) também por meios virtuais: e até que isso não é tanta ilusão quanto parece, não é?

*Ivan Justen Santana estreou como poeta em 1991, sendo escolhido para a antologia Os Poetas, prêmio Helena Kolody, da Secretaria de Estado da Cultura. Sua formação acadêmica passa pela UFPR e USP, e sua prática poética, pelo convívio com Marcos Prado, Thadeu Wojciechowski, William Teca, entre tantas pessoas que praticaram e praticam a leitura e a produção de poesia. Desde 2004, Ivan bloga poemas e traduções de poesia (em http://ossurtado.blogspot.com ) — atualmente seu blog chama-se “Um sim em si…”. Teve poemas selecionados e publicados na revista Coyote, em 2010, e segue atuando como professor de literatura, pesquisador de poesia paranaense, e poeta agitador cultural na cena poética curitibana.

Serviço
Recital de celebração ao centenário de lançamento do livro Ilusão e coroação do Príncipe dos Poetas Paranaenses.
Dia 20 de agosto às 10:00.
Local: Passeio Público – Ilha da Ilusão.

~ por Barbara Kirchner em 20/08/2011.

Uma resposta to “Centenário do Príncipe dos Poetas Paranaenses”

  1. Valeu você também, Barbarella:
    repostou, compareceu e brilhou;
    mais veloz que barca a toda vela,
    veio, viu, venceu e vocalizou.

    Ivan, ainda sob a inspiração do sagrado perneta…

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