LeitE QuentE


Paulo Vitola, o menestrel de Curitiba, apresentou (…) quase tudo o que ele escreveu e cantou sobre Curitiba. Primeiro no show, depois no livro “Chucrute & Abacaxi com Vinavuste”. “A Cidade sem Mar”, inspirada num escrito de Manoel Carlos Karam, com o mesmo título de uma das “Edições LeitEquentE”, de dezembro de 1989.

Na apresentação daquele terceiro número das Edições leitEquentE (depois de Nossa Linguagem, de Paulo Leminski, Passe a cuia, che!, de Arthur Tramujas Neto, e Os catarinas do Paraná, de Deonísio da Silva), o então presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Sérgio Mercer, escreveu “Se der, eu desço”.

“Vai descer no fim de semana? Curitibano não vai à praia; curitibano desce. O verbo descer, aí, tem importância fundamental. Você desce de gravata, a madame desce de salto alto, desce do carro para subir no buggy, desce uísque e caipirinha goela abaixo, desce engradados de cerveja, desce o calção para fazer xixi no mar, desce a autocrítica, desce a lenha no governo, desce a libido com a patroa, desce o saldo médio…”

“Tudo o que desce nessa convivência alegremente angustiada entre a gente do planalto e a orla está registrado pelo humor que castiga e perdoa de Karam, numa edição de leitEquentE destinada a fazer tremendo sucesso na temporada. E não adianta fugir para as praias de Santa Catarina ou do Nordeste. Sempre haverá alguém murmurando às suas costas:

— É de Curitiba!”

***
As Edições leitEquentE foram uma das melhores publicações da história da Fundação Cultural de Curitiba,Casa da Memória. Se não a melhor. Uma preciosidade, alcançou dez números e sua interrupção aconteceu exatamente na gestão do prefeito Rafael Greca (logo quem?), e não se sabe por que razão. Não por falta de recursos, ciúmes talvez. Ainda hoje, são edições tão caprichadas que, se caírem nas mãos de leitores em Alhures do Sul ou Paris, pela inteligência vão reconhecer a origem:

— É de Curitiba!

Nesta “Cidade sem Mar”, Sérgio Mercer bem definiu o humor de Manoel Carlos Karam: “Castiga e perdoa”.

Num dos trechos, Karam diz que há injustiças com o veranista curitibano. “Se o cidadão em Matinhos está tomando banho de mar com sabonete e toalha, sempre aparece alguém dizendo”:

– É de Curitiba!

“Se a madame recebe as amigas à beira do mar em Caiobá com a criadagem uniformizada”:

— É de Curitiba!

“Quando um menino de dez anos de idade aparece dirigindo um Monza nas Gaivotas”:

— É de Curitiba!

“Caso o veranista seja visto na Praia de Leste com as velas para Iemanjá no feriadão da Semana da Pátria:”

— É de Curitiba!

“Um homem debaixo do guarda-sol em Pontal do Sul tomando chimarrão”:

—É gaúcho de Curitiba!

Um senhor cortando o ralo cabelo numa barbearia de Guaratuba enquanto lê o Diário Oficial:”

— É de Curitiba!

“O sujeito senta sozinho no bar com vista para o mar de Matinhos, pede meia dúzia de Brahma e passa o dia bebendo e cantando Trem das Onze:

— É de Curitiba!

“E se abordar a garota que leva um cachorrinho pela coleira pedindo o número do telefone do cachorrinho:”

— É de Curitiba!

“Tem mais uma coisa. Em todos os casos, essa figura que aponta e repete É de Curitiba!, não tenham dúvidas:”

—É de Curitiba!

***
É de Curitiba! E aqui ainda não viveu ninguém igual: Paulo Vitola é o grande cronista da cidade. Muitos (como Adherbal Fortes de Sá Júnior, Aramis Millarch, Renato Schaitza, Nireu Teixeira, Luiz Renato Ribas, Francisco Camargo, Roberto Gomes, Wilson Bueno, Dalton Trevisan, o próprio Manoel Carlos Karam) escreveram Curitiba. Mas só Paulinho Vitola contou e encantou Curitiba na prosa, no verso e na canção!

(…)

A quem não foi, nos resta repetir Manoel Carlos Karam:

– É de Curitiba!

.

Dante Mendonça

[29/04/2008]

O Estado do Paraná

~ por Barbara Kirchner em 05/06/2011.

3 Respostas to “LeitE QuentE”

  1. Legal a lembrança do Dante e a sua divulgação aqui, Bárbara. O Paulo Vítola merece essa e outras homenagens. E olha que ele está vivíssimo da silva!

  2. Salve, Beco!
    Este ano a “LeitE QuentE” está completando 20 anos.
    Vendo os números do Karam, do Leminski e do Tramujas pensei que talvez fosse muuuuuuito interessante reunir os dez números, digitalizá-los pra ampliar o acesso e procurar recuperar os zilhões de links reverberados nestes escritos … como muito bem fez o Menestrel Paulo Vitola nesta apresentação no Paiol.
    Muitos curitibaneantes mal saíam das fraldas nos idos de 1989.
    Forte abraço,

  3. Ave.
    Mal tinha saído das fraldas…
    que beleza de trabalho será!
    beijo

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